Chácara
A Fundação Educacional Meninos e Meninas de Rua Profeta Elias, também conhecida como Chácara Os Meninos de 4 Pinheiros, é uma organização não governamental localizada em Mandirituba, região metropolitana de Curitiba, que atende 80 crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade.
Os meninos de Quatro Pinheiros têm muito que contar. Podem falar de abandono, dor, fome, frio, medo. De indiferença e solidão. De violência, repulsa, preconceito. De olhares gelados, dedo em riste pronto para acusar. De papelão servindo de cobertor. Do escuro. Do cheiro de esgoto em buracos-refúgios. De restos de comida. De ratos, piolhos e baratas. Da esmola. De chiclete vendido na esquina. De donos da rua. Da estupidez policial. Dos tênis nas vitrines. Do alívio do álcool, da cola, do crack. De assaltos e armas. De tiros dados ou recebidos. De morte. Do beco sem saída. Do querer e não ter: carinho, proteção, beijo de mãe, mão de pai para atravessar a rua, colo de vó, sopa quentinha, riso solto, doce, brinquedo no natal, bolo de velinha no aniversário, professora, aconchego, lar.
Ah! meninos, façam silêncio, por favor! Vamos varrer essas histórias para debaixo do tapete. O avesso da cidade é feio, desagradável, deselegante. Melhor ficar com o shopping (onde os meninos não entram), com a parte iluminada, limpa, vigiada, segura. Com os muros altos, cães e seguranças armados. Afinal, não temos nada a ver com isso. Problema deles ou de quem os colocou no mundo. O governo? Bem, o governo tem prioridades, pagamos impostos e nosso conforto vêm em primeiro lugar.
Os meninos de Quatro Pinheiros percorreram um longo caminho para se fazer ouvir. Um caminho de gente grande, onde cada passo custou um enorme esforço. De reconstruir coração, corpo e mente. De aprender a confiar. De se encontrar como criança e descobrir soluções coletivas. De mostrar, para o mundo lá fora, que aqui, nesse pedacinho de terra em Mandirituba, Paraná, Brasil, toda criança tem direitos.
A incrível aventura dos meninos de Quatro Pinheiros, que transformou uma pequena chácara num território de ampla liberdade e respeito, deve ser olhada com muita atenção. Não é uma experiência bem sucedida de tirar os meninos das ruas. Ao contrário, é a preparação para que eles possam ocupar a parte que lhes cabe na vida da cidade.
Alguém me disse, dia desses, que a Chácara de Quatro Pinheiros não é uma experiência replicável porque “precisa ter um Fernando (Goes, um dos fundadores) em cada projeto”. Meia verdade. Gestão compartilhada, boas parcerias e controle social sempre levam a resultados melhores. Para isso, é preciso coragem, despreendimento e muito afeto – virtudes que não são, espero, monopólio de um só homem, nesse mundão sem fim.